O candidato Ciro Gomes.

O candidato Ciro

por Felipe Moura Brasil em O Antagonista (09/08/2017)

O ex-ministro dos governos de Itamar Franco e Lula e pré-candidato à presidência Ciro Gomes (PDT-CE), em participação no programa ‘Pânico’, da rádio Jovem Pan, ecoou a narrativa do PT em diversos pontos:

– Defendeu Dilma Rousseff do impeachment, alegando que manobras contábeis do governo não configuram crime de responsabilidade;

– Defendeu Lula da sentença de condenação proferida por Sérgio Moro no caso do triplex, alegando que o juiz escreveu 238 páginas por não ter uma que fosse a prova cabal da corrupção passiva e da lavagem de dinheiro de propina do petrolão;

– Acusou Moro, na prática, de ter cometido um crime ao divulgar a conversa interceptada de Lula e Dilma sobre o termo de posse;

– Criticou a ordem de condução coercitiva de Lula sem intimação anterior.

Mesmo assim, Ciro:

– Ironizou os R$ 9 milhões de aposentadoria de Lula;

– Declarou apoio a Lava Jato;

– Celebrou as prisões dos peemedebistas Sérgio Cabral e Eduardo Cunha;

– Chamou o chefe da Casa Civil de Eliseu “Quadrilha”;

– Disse que teria votado pelo prosseguimento da denúncia contra Michel Temer porque caberia ao STF julgar, mas que ela tampouco continha a prova cabal da corrupção passiva, ainda que o presidente seja mesmo “chefe de quadrilha”, segundo Ciro.

O pré-candidato ainda buscou se distinguir de petistas e tucanos:

“Eu nunca aceitei que o Brasil tivesse que optar entre PT e PSDB. Eu fui fundador do PSDB, eu ajudei fazer o [Plano] Real; e eu ajudei o PT. São iguais: um com uma nuance mais de eficiência econômica, o outro com uma nuance mais de apelo social, mas a economia política, o modelo de compreensão das coisas no Brasil e as práticas são rigorosamente iguais.”

Sobre a igualdade das práticas, eis o exemplo dado por Ciro:

“O Marcos Valério, [operador] do mensalão, foi recrutado pelo [banqueiro] Daniel Dantas porque, para os políticos do PT de São Paulo, [isto] era aparentemente o crime perfeito. Por quê? Porque [o Marcos Valério] era o operador do PSDB. Então, se eu capturo você que trabalhava para o meu adversário, e você vem fazer para mim a mesma coisa, o outro não vai jamais denunciar.”

Ciro também falou do quadro eleitoral de 2018:

“Ninguém chega como favorito. O Lula sabe disso, por isso vai pensar muito se será candidato ou não. Porque o Lula tem uma situação muito peculiar, qual seja: ele é 100% conhecido, está no Jornal Nacional todo dia; preferido por 30% e rejeitado por 50%. Então esse é um candidato que parte bem e não chega, porque o segundo turno praticamente é hostil a ele por conta da rejeição. E o Lula é o mais esperto de todos.

Ele sabe bastante bem que ele precisava construir uma narrativa de vítima, de perseguição, para ‘coesionar’ o PT, que estava se esfarinhando, e segurar a tropa para ele chegar com alguma força lá na frente. Acho, porque tenho uma admiração pela inteligência dele, que ele próprio perceberá que não vale a pena. Se ele chegar a essa conclusão, que é o meu cálculo, o que acontecerá? Você terá cinco candidatos na faixa de 15% a 6%, portanto uma eleição completamente aberta que será definida no debate.”

Provocado como alguém que conta com a própria “eloquência” para se beneficiar deste cenário, Ciro preferiu corrigir, alegando que, na verdade, tem “conteúdo”.

Nessa linha, aliás, aproveitou para afetar superioridade a Jair Bolsonaro, ao avaliar o crescimento do deputado nas pesquisas, apontando seu “despreparo”:

“Ele toscamente responde a duas grandes questões da sociedade: uma a violência, a segunda a corrupção. Só que esses dois problemas não são resolvidos com frase-feita.”

Muito menos, certamente, fazendo vista grossa aos crimes de Lula e Dilma.

felipemb@oantagonista.com

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Os partidos morrem. E o socialismo?

Reproduzo texto do jornal Público (Portugal):

Os partidos morrem. E o socialismo?

Por Rui Tavares (22/05/2017)

O que se perde nesta dupla deriva neoliberal ou neonacionalista é, no fundo, o próprio socialismo.

Os socialistas espanhóis foram ontem votar, como noticiou o PÚBLICO, perante a ameaça de tombarem na irrelevância política. Não é para menos: após os casos da Grécia e da Holanda, um terceiro partido socialista europeu colapsou e arrisca-se a desaparecer em França. Que se passa?

 

Poderíamos encolher os ombros dizendo que isto é o que acontece aos partidos que perdem sentido: não sendo por necessidade eternos, desaparecem. Mas essa é ainda uma explicação curta, porque aquilo que nos deve interessar não é tanto o que sucede ao partido, mas acima de tudo o que acontecerá às ideias que em tempos o animaram. Os partidos socialistas podem morrer, já se viu. E o socialismo?

 

Esgravatando um pouco mais, uma das explicações para o definhamento dos partidos socialistas é que deixaram de ser socialistas. Sem ideias perante a globalização, a crise ecológica ou a financeirização do capitalismo, os socialistas de “terceira via” acabaram por aceitar que o mercado fosse, com um toque aqui e outro ali, a principal via de fornecimento de bens públicos à população. Onde havia obras públicas, passou a haver parcerias público-privadas. Onde havia políticas de habitação, passou a haver empréstimos imobiliários. Onde havia aumentos de salários, passou a haver cartões de crédito para pagar com cada vez mais dificuldade ao fim do mês.

 

Este diagnóstico, que costuma ser feito à esquerda dos partidos socialistas, parece-me em grande medida correto. O meu problema não é com o diagnóstico, mas com o prognóstico. Se é verdade que a esquerda perdeu a sua capacidade propositiva desde o fim da guerra fria, não é menos verdade que ela não a vai conseguir recuperar se insistir em roubar ideias à direita. E isso, no entanto, é exatamente o que alguma esquerda eurofóbica está a fazer. Onde numa ponta da esquerda os mais centristas foram buscar o neoliberalismo a Thatcher e a Reagan, na outra ponta os mais extremistas foram buscar à direita o discurso populista e anti-União Europeia. Num caso como noutro, o resultado não pode ser bonito. As ideias têm vida própria: é tão impossível importar o neoliberalismo e querer vesti-lo de esquerda socialmente justa como pensar que importando o neonacionalismo se consegue controlar a sua essência xenófoba e agressiva. Neste caso, na verdade, a ilusão é mais perigosa ainda, sabendo nós como o nacionalismo põe em causa a democracia, o estado de direito e os direitos humanos. Normalizá-lo é convidá-lo a reentrar na história e ganhar o poder. Sabemos o preço que se pagou por isso da última vez que sucedeu.

O que se perde nesta dupla deriva neoliberal ou neonacionalista é, no fundo, o próprio socialismo. O socialismo nasceu na revolução industrial, na Europa e em grande medida para a Europa também, a partir da noção — que ainda é válida — de que todas as sociedades europeias se encontravam diferenciadamente sujeitas aos efeitos dos mesmos impactos económicos. Para lidar com esta realidade, os socialistas foram beber à fonte do século XVIII as ideias cosmopolitas de uma solidariedade universal baseada na tríade liberdade-igualdade-fraternidade.

 

Tudo no que vemos à nossa volta, da automação do trabalho à revolução na medicina, das alterações climáticas à crise global dos direitos humanos, nos impele a procurar mais solidariedade universal e não menos. Mas tal como a cedência ideológica à desregulação dos mercados não resolveu, antes agravou, os nossos problemas de desigualdade, também a cedência ao fechamento nacional não contribuirá para mais do que nos deixar à beira do precipício autoritário. Ambas as derivas prolongam a situação de dependência e dominação em que muita gente vive quotidianamente e com isso impedem ou atrasam a emancipação humana. A esquerda não pode perder mais outra década sem apresentar o seu modelo para a globalização, modelo esse que não poderá deixar de passar pela Europa. Se não o fizer, arrisca-se a perder o comboio definitivamente.

UM GOLPE DE MESTRE

Reproduzo texto da Revista Piauí:

UM GOLPE DE MESTRE

Como os donos da JBS prepararam uma delação que os deixou de mãos livres e bolsos cheios

Por  CONSUELO DIEGUEZ (19 DE MAIO DE 2017)

No começo deste ano os irmãos Joesley e Wesley Batista foram à Procuradoria-Geral da República com uma proposta: queriam fazer uma delação premiada. A oferta era irrecusável. Os donos da JBS tinham na gaveta segredos inconfessos sobre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Os mais sombrios se referiam a uma frente ainda pouco conhecida e muito desejada pelos investigadores da operação Lava Jato e de seus desdobramentos: o BNDES, a maior caixa-forte de investimentos do governo, protegida sob um manto de legislação que impedia que policiais e órgãos de controle abrissem suas planilhas.

 

Os Batista queriam falar, mas antes de subirem os elevadores da Procuradoria-Geral da República eles arquitetaram um plano. Ao contrário dos empresários que se converteram em delatores após meses de cadeia, os irmãos acordaram com os procuradores que não seriam presos, sequer usariam tornozeleira eletrônica; suas empresas sofreriam o mínimo dano possível; Joesley Batista recebeu, inclusive, a garantia de poder continuar morando nos Estados Unidos, longe dos holofotes e de cenas constrangedoras em camburões e delegacias. “Foi um golpe de mestre”, disse-me um auditor do TCU. “Enquanto os outros empresários estão mofando na cadeia, eles conseguiram garantir sua liberdade e a segurança de seus negócios. Esses caipiras deram um banho em Marcelo Odebrecht.”

 

Os Batista ainda garantiram que a única penalidade que eles sofreriam seria o pagamento de uma multa de 225 milhões de reais. “Nem dá pra chamar de troco. Isso é uma meia gorjeta. É nada diante da quantidade de dinheiro que receberam do BNDES”, me disse o gestor de um grande fundo de investimento. “Eles montaram um império na base da corrupção e do dinheiro público e agora saem ilesos pagando apenas essa multa ridícula?”, questionou.

 

Ontem, o que se comentava no mercado financeiro era que a multa seria paga com dinheiro fruto do próprio plano pré-delação. Os Batista, conscientes do estrago que as divulgações das gravações de Temer e Aécio causariam no mercado – principalmente na cotação do dólar –, trataram de especular na Bolsa de Mercadorias e de Futuros, a BM&F.  Fizeram aplicações em moeda norte-americana, apostando na alta. Resultado: estima-se que, com essas operações, eles lucraram cerca de quatro vezes o valor da multa.

 

A esperteza da dupla também seduziu os americanos. Lá, eles se comprometeram a fazer um acordo de leniência entregando todo o esquema de corrupção com autoridades brasileiras. Em troca, eles poderão continuar operando suas empresas nos Estados Unidos.

 

Hoje, 80% da operação da JBS está fora do Brasil, o que é também motivo de crítica dos analistas. Eles questionam o fato do banco ter despejado tanto dinheiro em um grupo cujos negócios estavam sendo desenvolvidos no exterior, o que não geraria nem empregos nem renda no Brasil. Os Batista chegaram a tentar mudar a sede da empresa para a Irlanda, um paraíso fiscal, mas não receberam autorização do BNDES. Recentemente, tentavam transferir a sede do grupo para os Estados Unidos, onde se encontra a maior parte de suas fábricas.

 

Desde 2005, o BNDES vinha despejando vultosos recursos no caixa da empresa fundada pelo pai dos Batista em 1953. O pequeno açougue se tornaria a maior processadora de carnes do mundo, graças aos mimos do banco estatal. Foram 10,63 bilhões de reais investidos na companhia. Tamanha generosidade com a família Batista chamou a atenção do mercado. Empresários do setor e analistas batiam cabeça para tentar entender a razão para o BNDES ter despejado tanto dinheiro em uma única empresa, cujo impacto na economia seria baixo frente ao montante investido.

 

Os irmãos Batista já vinham sendo investigados antes da proposta de delação. Eles eram informados sobre as investigações por meio do procurador Ângelo Goulart Villela que atuava em uma das operações. Pagaram altas somas ao procurador para que ele os avisasse sobre o passo a passo das investigações que os cercavam. Villela, antes de ser afastado pela Procuradoria, acionou o alarme. Ele sabia que a corda estava por estourar.

 

Sentindo o cerco se apertar, os irmãos entenderam que a única saída seria propor ao Ministério Público um acordo. O medo dos Batista era terminar como os empresários Marcelo Odebrecht – controlador da empresa –, Léo Pinheiro, da OAS, e outros executivos de empreiteiras: na cadeia, forçados a confessar enquanto suas empresas derretem em praça pública, perdendo contratos e novos negócios. O foco de maior preocupação era o grupo J&F. Dono da JBS e de mais uma série de empresas nas áreas de papel e celulose, sabão e couro, o conglomerado poderia ser reduzido drasticamente, a exemplo de várias empresas envolvidas na Lava Jato.

 

O plano dos Batista, antes de o escândalo estourar, era fazer um IPO, uma oferta pública inicial de ações nos Estados Unidos, mas eles abortaram a operação diante da constrangedora situação em que se encontravam. Ao se apresentarem voluntariamente aos procuradores, os irmãos tinham muito mais informações a oferecer além da participação do BNDES. Durante anos, eles financiaram políticos de vários partidos. Nas eleições de 2014, a empresa doou 366,8 milhões de reais às principais campanhas.

 

A negociação com o MP foi muito bem alinhavada. Para salvar a própria pele, Joesley Batista gravou o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves em diálogos nada republicanos. Em um deles, com Temer, Joesley fala sobre Eduardo Cunha, o deputado cassado preso em Curitiba desde o ano passado. Ele diz: “dentro do possível, eu fiz o máximo que deu ali, zerei tudo o que tinha de alguma pendência”. O diálogo dá margem para a interpretação de que o empresário estaria comprando o silêncio de Cunha, que guardaria segredos capazes de entregar toda a cúpula do PMDB. Em outro, com Aécio, negocia uma propina diretamente para o senador. Joesley também se comprometeu com a Polícia Federal a colocar os chips nas mochilas que foram usadas para a entrega das propinas.

 

Desde 2015, o Tribunal de Contas da União tentava, sem sucesso, fazer com que o BNDES liberasse os dados das operações firmadas com a JBS. O banco se recusava a fazê-lo, alegando sigilo bancário. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal, que mandou a instituição abrir a caixa-preta. Mas, foi somente no ano passado que o banco finalmente enviou para o TCU a base de dados com todas as operações contratadas com a JBS. Era uma planilha bomba.

 

Os auditores do TCU concluíram que muitas das operações firmadas com o frigorífico foram prejudiciais ao banco estatal. Pelas análises, as operações que maior dano provocaram foram as realizadas pelo BNDESPar, o braço de participação acionária da instituição. Em vez de simplesmente emprestar dinheiro para a empresa – que assumiria o risco do empréstimo –, o banco tornou-se sócio do negócio, em percentuais acima de 30%, mais do que era permitido pelas regras do próprio BNDES. O TCU estimou que as perdas do banco com a JBS podem ultrapassar 1,2 bilhão de reais. Em abril, o TCU julgou irregular uma das operações feitas pelo banco com o frigorífico (a compra da americana Swift Foods pela JBS, em 2007). Apesar de tudo, o ressarcimento pedido pelo Tribunal foi de meros 70 milhões de reais.

 

A decisão do TCU, no entanto, foi o estopim que deflagrou a operação Bullish, da Polícia Federal, que, na sexta-feira passada levou Wesley, um dos irmãos Batista, a depor coercitivamente na Polícia Federal. Joesley Batista e Luciano Coutinho também foram convocados, mas estavam no exterior. Trinta e sete funcionários do banco receberam mandados de condução coercitiva para prestar esclarecimentos. Coutinho enviou em 16 de maio deste ano uma carta à piauí afirmando que as operações foram absolutamente legais.

 

Além do TCU, os irmãos Batista também estavam sob a mira de outra operação, a Greenfield, que investiga prejuízos sofridos por fundos de pensão dos funcionários de empresas estatais, entre eles a Funcef, da Caixa Econômica Federal, e a Petros, da Petrobras, em negócios com grandes empresas, JBS incluída. Em setembro do ano passado, os dois irmãos chegaram a ter os bens congelados por ordem judicial e foram proibidos de continuar à frente dos negócios. Só conseguiram desbloquear o patrimônio após depositarem 1,5 bilhão de reais em um seguro-garantia. Eles também eram alvo da operação Carne Fraca, que investigava a compra de fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para que fizessem vista grossa a negócios irregulares tocados por frigoríficos.

 

Perguntei a um integrante do TCU o que ele achou do desfecho da delação dos Batista. “Espero que as vantagens que receberam em troca realmente tragam algum benefício para o país”, ele me confidenciou. “Um acordo desses tão vantajoso para os criminosos só vai valer a pena se for para renovar definitivamente o cenário.”

Precisamos imitar um francês do século 17

Reproduzo texto d’O Antagonista:

Precisamos imitar um francês do século 17

Por Mario Sabino

Emmanuel Macron tomou posse como presidente da França, no domingo passado, com a intenção de levar adiante reformas que diminuam o desemprego e aumentem a competitividade do país. Mas o tema deste artigo é um francês do século 17: Jean-Baptiste Colbert, ele também um reformista.

Superintendente das finanças de Luís XIV, ele substituiu o marquês Nicolas Fouquet, detido e julgado por corrupção e condenado ao banimento. Pouco antes de ser detido, Fouquet havia recebido Luís XIV na sua magnífica propriedade em Vaux-le-Vicomte. O rei ficou espantado com a riqueza do meliante, confirmando as suspeitas levantadas por Colbert, que cobiçava o cargo de Fouquet.

No comando do dinheiro do reino, Colbert promoveu uma reforma geral na administração. É curioso que pareça novidade liberal gerir o estado como uma empresa comercial, mas foi o que o mercantilista Colbert levou a cabo há quase quatro séculos. Todos os impostos e despesas passaram a ser meticulosamente registrados. As repartições (os “bureaux”) foram organizadas para dar conta dos controles rígidos exigidos por Colbert. Aliás, a palavra “burocracia”, inventada no século seguinte por Vincent de Gournay, originou-se da estrutura criada pelo superintendente de Finanças de Luís XIV.

Emmanuel Macron é acusado pela esquerda de ser representante dos banqueiros — o que ele efetivamente é. Colbert era acusado pelas nobreza de ser representante dos grandes comerciantes — o que ele efetivamente era. Como disse o historiador Jacques Barzun, “com Luís XIV, a burguesia estava no poder; as leituras e os memorandos iniciais do rei fizeram dele, em parte, um rei burguês”. Por meio da centralização administrativa feita por Colbert, esvaziou-se o poder tirânico exercido pelos nobres locais.

Com tolerância zero para a corrupção ou mesmo a simples malandragem (a “moral burguesa” tem lá suas vantagens), o superintendente das Finanças propiciou que a França se tornasse a principal exportadora de artigos para a Europa. Peças de tecido com um centímetro a menos do que o registrado nos “bureaux” de exportação eram retidas pelos inspetores e destruídas. Resultado: a confiança dos importadores aumentou as encomendas de todos os produtos.

Depois de instalar uma administração eficiente e, consequentemente, colocar as finanças em ordem, Colbert procurou mitigar os efeitos da pobreza entre artesãos ou camponeses. Lê-se em Jacques Barzun: ele “usou seus funcionários para coletar dados estatísticos que lhe permitissem planejar uma ação corretiva. Renovou estradas, drenou pântanos, construiu canais e tomou medidas para aliviar a carga fiscal, como pedágios e outros tributos”. Como se não bastasse, deve-se a Colbert boa parte do patrimônio artístico francês.

Luís XIV, no entanto, colocaria tudo a perder, por causa da sua ambição expansionista — transmitida como vírus a seus sucessores. A França entraria continuamente em guerras durante um século e meio, arruinando a sua economia e abrindo caminho para os demagogos revolucionários. A centralização administrativa eficaz transformou-se em máquina pesada. Uma pena, porque, como nota Jacques Barzun, a França de Luís XIV poderia ter dado uma lição mundial de economia política graças a Colbert.

O termo “colbertismo” ainda é usado na França, tanto para o bem como para o mal. Espero que o capitalista Macron inspire-se no mercantilista Colbert — e que o Brasil imite a receita. Somos um país de imitadores, mas está na hora de pararmos de imitar apenas as coisas ruins.

Eleições 2018

Sobre a próxima eleição presidencial (2018) no Brasil, minhas considerações:
Nenhum candidato, individualmente, conseguirá se eleger. As coligações serão diretamente responsáveis pelo novo presidente. O PT, mesmo com o sr. Lulla da Silva, não se basta para vencer a eleição. Nem com a coligação óbvia de sempre (PSol, PCB, PCdoB, PCO…), nem com a ajuda do PDT. O PMDB e o PSDB sozinhos também não elegem o presidente, ainda mais que os seus principais nomes estão um tanto quanto queimados. Dificilmente o PMDB e o PT irão fazer novamente a coligação que levou a dupla Dilma e Temer ao Planalto (lembrando que a dna. Dilma foi eleita graças ao Temer e não apesar dele). O PSDB ainda não sabe se é esquerda ou centro ou direita (mas de leve…) ou o que calhar (a foto do Serra com a presidente da UNE confundiu ainda mais). O que, na minha visão vai ocorrer, é que até o PMDB vai lançar candidato cabeça-de-chapa. O PMDB poderá/deverá buscar alguém de fora do partido para aumentar as chances de ir ao 2.º turno (Henrique Meirelles? Joaquim Barbosa?) Já o PSDB deverá apostar em Dória mesmo, já que não tem mais quem apresentar. O PDT irá se apresentar com o sem-temperança Ciro Gomes? E o PSol? Irá de Luciana Genro e Guilherme Boulos? E depois, no segundo turno, o embate será entre o pior e o menos ruim (não necessariamente nesta ordem), isto é, entre o candidato do PT, que até pode ser o Lulla (ou será a Gleisi Hoffmann?), e o candidato do PMDB/PSDB, que até pode ser o Dória ou o Bolsonaro ou o Caiado… E onde entram Renan Calheiros, Marina Silva e Heloísa Helena?

Pio XI x Hitler

Reproduzo a coluna de Ricardo Orlandini:

20.03.2017 | Opinião

Mit brennender Sorge

Sabemos que o “papel aceita tudo”, como diz o velho ditado popular, mas a verdade histórica é implacável.

Os amigos que me acompanham sabem que aqui no meu site tenho uma seção que muito me agrada, o Hoje na História, onde coloco links e informações de fatos importantes de nossa história utilizando principalmente dados públicos da Wikipédia.

Sempre procuro checar e re-checar as informações, conferindo a veracidade dos fatos, as datas corretas e os personagens envolvidos. Procuro apenas retratar a verdade histórica, sem criar nenhum fato novo, nem tampouco reescrever esses fatos.

Desde jovem ouvi falar das ligações da Igreja Católica Apostólica Romana, em especial o Papa Pio XI, com o nacional-socialismo e de Adolf Hitler. Afirmam e afirmavam alguns, que Pio XI e o Vaticano apoiavam os nazistas.

Existe até gente que diz que o Vaticano apoiava a ODESSA (Organisation der ehemaligen SSAngehörigen, que significa “Organização de antigos membros da SS“), uma suposta organização nazista internacional secreta criada no final da Segunda Guerra Mundial com o objetivo de facilitar rotas de fuga de criminosos de guerra para a Argentina, o Brasil ou o Oriente Médio.

Não vou negar que isso possa ter existido, pois o que quero fazer hoje é, eventualmente, reparar um erro que até eu mesmo imaginava ser verdadeiro.

Falo da carta encíclica do papa Pio XI, Mit brennender Sorge (“Com ardente preocupação”), datada de 14 de março de 1937, que condena o nacional-socialismo e o racismo.

A encíclica foi publicada alguns  dias antes de Divini Redemptoris, uma condenação similar ao comunismo na Rússia publicada em 19 de março de 1937.

É fato que em 1933, Pio XI negociou uma concordata com a Alemanha, mas Hitler deixou de honrar seus compromissos, o que fez com que as críticas do Papa se tornassem mais severas nos anos seguintes.

Mit brennender Sorge é considerada como o primeiro documento público de um chefe de Estado europeu a criticar o nazismo. Em uma das suas passagens mais célebres, contém o que é frequentemente interpretado como um ataque pessoal ao Führer:

Aquele que, com sacrílego desconhecimento das diferenças essenciais entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples homem, ousar colocar-se ao nível de Cristo, ou pior ainda, acima d’Ele ou contra Ele, um simples mortal, ainda que fosse o maior de todos os tempos, saiba que é um profeta de fantasias a quem se aplica espantosamente a palavra da Escritura: ‘Aquele que mora nos céus zomba deles’ (Sal 2,4).

A encíclica também desperta interesse por ser um dos poucos documentos oficiais da Santa Sé a ter a sua versão oficial em vernáculo. No caso, por ser direcionada especificamente à Igreja da Alemanha, o pontífice optou por escrevê-la em alemão.

Concluída a redação, cópias da encíclica foram enviadas clandestinamente à Alemanha em motos Malaguti, para não serem apreendidas pela Gestapo. Em seguida, foram reproduzidas por oficiais gráficos da Igreja Católica e distribuídas aos bispos, padres e capelães, com ordens de que fossem lidas em todas as paróquias após a homilia da missa matutina do dia 21 de março de 1937, festa de Domingo de Ramos. Acredita-se que a data tenha sido escolhida por ser uma das festas do ano litúrgico em que a presença de fiéis e autoridades costuma ser máxima, aumentando o impacto da mensagem. A retórica usada pelo Papa Pio XI no documento é de uma agressividade raramente vista em documentos papais.

A reação de Hitler por meio da Gestapo foi violenta: recrudesceu imediatamente a perseguição aos católicos alemães, ocasionando a prisão de mais 1.100 clérigos, e ordenou a veiculação de uma campanha publicitária anticlerical sob a direção do ministro Joseph Goebbels. Publicada ainda em 1937, época em que Adolf Hitler gozava de certo prestígio na opinião pública ocidental, e a guerra parecia uma possibilidade remota, a encíclica surpreendeu pelo tom duro e foi alvo de algumas críticas na imprensa secular e de alguns católicos laicos, que ainda defendiam a convivência pacífica com o Terceiro Reich e não compreenderam a atitude do Pontífice.

Para escrever o documento, Pio XI contou com a colaboração e as informações dos cardeais alemães Adolf Bertram, Michael von Faulhaber e Karl Joseph Schulte e dos dois bispos mais contrários ao regime hitlerista: Clemens von Gallen e Konrad von Preysing, além da intervenção decisiva do Cardeal Eugênio Pacelli – futuro Papa Pio XII – e dos seus auxiliares alemães , Mons. Ludwig Kaas e dos jesuítas Robert Leiber e Augustin Bea.

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Na época foi uma surpresa geral para os fiéis, as autoridades e a polícia, a leitura da encíclica nas missas do domingo de Ramos, 21 de março de 1937, em todos os templos católicos alemães, que eram então mais de 11.000 igrejas. Seu impacto entre as elites dirigentes alemãs foi forte. Em toda a breve história do Terceiro Reich, nunca recebeu este na Alemanha uma contestação de amplitude e gravidade que se aproximasse da que se produziu com a Mit brennender Sorge. No entanto, o controle intensivo que o regime exercia sobre a imprensa e a falta de liberdade de circulação de informações impediu que o impacto fosse maior entre as massas, sendo seu conteúdo prontamente censurado e respondido com uma forte campanha publicitária anticlerical. No dia seguinte a leitura nos púlpitos, todas as paróquias e escritórios das dioceses alemãs foram visitados por oficias da Gestapo que apreenderam as cópias do documento.

Como era de se esperar, no mesmo dia o órgão oficial nazista, Völkischer Beobachter, publicou uma primeira réplica à encíclica – que foi também a última. O ministro alemão da propaganda, Joseph Goebbels, foi suficientemente perspicaz para perceber a força do documento e entender que o mais conveniente era ignorá-lo completamente, fazendo uso do extensivo controle dos meios de comunicação que o Reich já possuía na época para censurar o seu conteúdo e qualquer referência a ele.

Após a leitura e publicação da encíclica, as perseguições anticatólicas tiveram lugar, e as relações diplomáticas Berlim-Vaticano ficaram severamente estremecidas. Em maio de 1937, 1.100 padres e religiosos são lançados nas prisões do Reich. 304 sacerdotes católicos são deportados para Dachau em 1938. As organizações católicas são dissolvidas e as escolas confessionais interditadas.

Até a queda do regime nazista, cerca de onze mil sacerdotes católicos (quase metade do clero alemão dessa época) “foi atingido por medidas punitivas, política ou religiosamente motivadas, pelo regime nazista“, terminando muitas vezes nos campos de concentração.

Muito do que aqui escrevo foi encontrado na Wikipédia, que possui um critério muito forte de veracidade das informações. Pesquisei textos da encíclica Mit brennender Sorge em português, em alemão, em inglês, em italiano, e no próprio Site do Vaticano.

Não estou induzindo nem tentando formar a opinião de ninguém. Estou passando uma informação verídica que, no mínimo, corrige falsas informações que denegriram e ainda denegram a imagem do Vaticano e do Papa Pio IX e sua posição durante a Segunda Guerra Mundial.

O golpe de Lula da Silva

Editorial do Estadão de 16.11.2016.
Há quem defenda a ideia de que seriam politicamente proveitosas a condenação e a prisão de Lula, pois, sob protestos dos progressistas do mundo inteiro, criariam um grande mártir cuja imagem atrás das grades motivaria uma reação perfeita para reconquistar apoio popular.

O Estado brasileiro é ilegítimo, está a serviço de interesses estrangeiros e por isso não tem moral nem autoridade para julgar e botar na cadeia Luiz Inácio Lula da Silva. Essa é a tese implicitamente defendida há dias pelo antigo ídolo do ABC paulista, em encontro de partidos e movimentos de esquerda: “Estamos na hora de costurar uma coisa maior, mais sólida. Não é um partido, não é uma frente, é um movimento para restaurar a democracia”. Ora, se algo precisa ser restaurado é porque foi desfigurado, deturpado. Sendo assim, as instituições brasileiras não têm legitimidade para julgar e condenar quem quer que seja, muito menos um campeão das causas populares que ensinou ao mundo como combater a fome e acabou com a miséria.

O palco para o grande “evento democrático” em solidariedade ao Movimento dos Sem-Terra (MST) em Guararema (SP) foi armado na Escola Nacional Florestan Fernandes, criada pelo MST para formar militantes políticos. A escola havia sido vítima da “truculência policial”. Participaram do encontro representantes do PT, PCdoB, PSOL e PSTU, além de movimentos sociais e organizações sindicais. Animado por manifestações de devotado apoio – que só tem visto em ambientes selecionados –, Lula sugeriu a existência de influências externas para o fato de os partidos e candidatos esquerdistas terem sido repudiados nas urnas no mês passado: “Tem muita coisa que está acontecendo que não é da cabeça do Temer nem do Eduardo Cunha. Tem muito mais cabeças se metendo, como se meteram na Argentina, Uruguai, Bolívia”.

Está clara, pois, a estratégia de Lula na tentativa de afastar o risco cada vez mais próximo de ser condenado em um dos processos em que é réu por corrupção. A Lava Jato e operações congêneres não passam de instrumentos de perseguição do PT e seus dirigentes. E esta é apenas uma das manifestações da ampla conspiração do capital financeiro internacional para acabar com as lideranças “progressistas” do País e se apossar do mercado interno e de nossas riquezas naturais.

É claro ademais que, uma vez não sendo mais o Brasil uma democracia, fica fácil compreender como e por que a “nova matriz econômica” dos governos petistas foi sabotada pelo mercado; como é que alguém como Eduardo Cunha conseguiu se tornar presidente da Câmara depois da vitória de Dilma no pleito presidencial de 2014; como é que “a maior base parlamentar da História da República” se dissolveu num piscar de olhos e todas as propostas progressistas de Dilma passaram a ser rejeitadas; como é que, de uma hora para outra, o partido mais popular do País foi massacrado nas urnas municipais. É óbvio que tudo isso só aconteceu porque os inimigos do povo acabaram com a democracia no Brasil. Com o apoio da esquerda internacional, é preciso “restaurar a democracia” entre nós, como espertamente defende Lula da Silva. Sobre os desmandos administrativos, o desmanche da economia e a corrupção patrocinados pelo lulopetismo, nenhuma palavra.

O aceno à esquerda internacional tem a intenção de explorar o que resta do prestígio do ex-presidente no exterior e capitalizá-lo na forma de manifestações de solidariedade que criem um clima favorável para que, em caso de condenação, Lula obtenha asilo político em algum país amigo. Há quem defenda a ideia de que seriam politicamente proveitosas a condenação e a prisão de Lula, pois, sob protestos dos progressistas do mundo inteiro, criariam um grande mártir cuja imagem atrás das grades motivaria uma reação perfeita para reconquistar apoio popular.

Essa ideia, porém, só pode passar pela cabeça de quem não conhece o apego que Lula e sua família sempre tiveram às conquistas do alpinismo social e econômico. Lula até topa virar mártir, desde que confortavelmente instalado em algum aprazível recanto do mundo, do qual possa se deslocar para atender, a bom preço, a governos e instituições que se interessem por detalhes de como acabou com a fome e a pobreza no Brasil. Quem quiser que acredite. Porque o que Lula está armando mesmo é um golpe para chamar de seu.