NOSSO WATERGATE, por FLÁVIO TAVARES (ZH 16463 19/09/2010)

NOSSO WATERGATE, por FLÁVIO TAVARES (ZH 16463 19/09/2010)

Lembram-se do escarcéu de Watergate, que, em 1973, abalou os Estados Unidos e levou o presidente Nixon à renúncia? A série de obscuros escândalos envolvendo, agora, a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República tem tantos toques de sordidez, que parece que estamos em Washington dos anos 1970, não em Brasília do século 21. Mas a História “só se repete como farsa” e há diferenças. Lá, nem a Casa Branca impediu que a imprensa revelasse a trama de espionagem em que “homens do presidente” invadiram o escritório do candidato adversário para instalar microfones e fotografar documentos. Aqui, ao crescer o escândalo, a demissão de Erenice Guerra aparece mais como uma tentativa de proteger a candidata governista à Presidência da República (e encobrir as entranhas do monstro) do que em revelar a profundidade da máfia enquistada na Casa Civil.

Entre nós, os escândalos se repetem e se multiplicam de tal forma, que assimilamos o absurdo sem entender a profundidade do dano. Erenice substituiu Dilma Rousseff na Casa Civil e, antes, foi seu braço forte no Palácio do Planalto e no Ministério de Minas e Energia. Não é, portanto, neófita nem noviça. Só chegou aonde chegou por conhecer os labirintos do poder. Não pode dizer (como o presidente da República) que “não sabia de nada”. A chefia da Casa Civil é o filtro pelo qual passam todas as águas da administração e da política – das mais cristalinas às mais fétidas dos esgotos.

A quebra, pela Receita Federal, do sigilo das declarações de renda da filha e familiares de José Serra foi apenas o sinal inicial do horror. A revelação de que o filho de Erenice exigia comissão de 5% em financiamentos do BNDES é só um detalhe na senda de escândalos. Antes ou além disso, como era tudo?

Há anos, surgem sinais de que a Casa Civil é núcleo de estranhas pressões. Em 2008, a então diretora da Anac, Denise Abreu, denunciou que Dilma Rousseff e Erenice a pressionaram para favorecer a venda da Varig e do seu setor de cargas (VarigLog) ao fundo Matlin Patterson, dos EUA, e a três sócios brasileiros. Era a ponta do escândalo que reapareceu há um mês, quando Lula da Silva nomeou como diretor de operações dos Correios o coronel Artur Silva, que, antes, recebera um contrato de R$ 45 milhões para que sua empresa (a MTA – Máster Top Linhas Aéreas) transporte a mala postal dos próprios correios. Conhecido como coronel Qua-quá, ele presidiu a VarigLog, indicado pelo chinês Lap Wai-Chan, representante do fundo Matlin Patterson.

Seu “padrinho”, o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, fora em 2007 o “pistolão” na venda da Varig para a Gol, da família Constantino, e da VarigLog para o fundo estrangeiro, algo vedado pela legislação aeronáutica. Fez-se público na época em que o compadre recebera R$ 5 milhões para o governo permitir o que a lei proibia.

Limito-me a esses fatos para esboçar o quadro de operações clandestinas na cúpula do governo federal, onde a Casa Civil é o grande executor e filtro. O resto está na imprensa, num somatório de corrupção.

O fato de que tudo apareça em plena campanha eleitoral não pode servir de biombo ou de escudo. A campanha eleitoral não dá imunidades nem serve de blindagem aos candidatos. Por que silenciar frente ao delito ou encobri-lo com a demissão de Erenice?

Ou irão querer que essas façanhas sirvam de modelo a toda Terra???

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