Veneza, duplamente ameaçada.

 

Texto sobre Veneza publicado hoje, 14/11/2010, na ZH.

RUMO INCERTO por LAURA SCHENKEL

Veneza, duplamente ameaçada

Além do risco de afundar,  La Serenissima pode perder sua “alma” e se transformar em uma espécie de parque temático

De um lado, as águas que um dia podem submergi-la. Do outro, a avalanche diária de turistas e o êxodo da população, que podem transformar a cidade em uma espécie de parque temático. Joia da arquitetura e do patrimônio histórico mundiais, Veneza, na Itália, vive entre duas ameaças igualmente preocupantes – e luta contra o tempo em busca de uma solução.

Os altos valores dos aluguéis e a falta de oportunidades fora do setor de turismo – a base da economia local – “expulsam” cada vez mais os venezianos. Com medo de que a cidade perca sua identidade e vida própria, um grupo de moradores planejou um protesto inusitado: eles vão distribuir mapas e “ingressos” ao estilo Disneyworld para o que chamam de Veniceland (algo como Venezalândia). Assim, esperam chamar a atenção mundial para reverter a transformação da cidade em um “parque temático” – com seus 55 mil turistas diários, quase o dobro de sua população.

– Está claro que toda Veneza se tornou pouco mais do que um parque de diversões para os 20 milhões de turistas que vêm anualmente à nossa cidade – afirmou Matteo Secchi, porta-voz do grupo, ao jornal The Telegraph.

Com uma falsa inauguração do “parque”, os manifestantes vão reivindicar, neste domingo, moradias a preços acessíveis e diversificação da economia. O grupo realizou um grande protesto há um ano, mas não vê nenhuma ação dos governos italiano e local.

– Eles não estão fazendo nada para preservar o tecido socioeconômico da cidade. Veneza está morrendo e perdendo sua alma – disse Secchi.

Alto custo de vida provoca êxodo de venezianos

Segundo o professor de história Robert C. Davis, co-autor de Venice, The Tourist Maze (Veneza, o Labirinto Turístico, em tradução livre), há muitos motivos para o êxodo da cidade. O principal é o alto custo de moradia, uma vez que muitas casas e prédios se tornaram pousadas, e imóveis são comprados para serem usados como residências de veraneio.

– A maior parte dos estabelecimentos que vendem comida ou artigos para casa deixou a cidade e foi substituída por lojas turísticas e bares, tornando difícil comprar produtos do dia a dia – afirmou, em entrevista por e-mail a Zero Hora.

O governo local é cobrado também por permitir anúncios gigantes que encobrem prédios históricos da cidade, conhecida como La Serenissima. Diretores do MoMa, de Nova York, do Museu Britânico, de Londres, e do Hermitage, de São Petersburgo, escreveram uma carta condenando as propagandas. Eles argumentam que os painéis estragam a experiência dos visitantes. Justificando precisar do dinheiro da publicidade para aplicar em reformas, o prefeito da cidade, Giorgio Orsoni, respondeu, sem piedade:

– Se os turistas querem ver os prédios, devem voltar para casa e procurar livros com fotos.

Em outra polêmica medida, o governo italiano planeja cobrar uma taxa para entrar na cidade, porque muitos dos turistas levam comida e bebidas consigo e preferem não passar a noite lá. Assim, repassam pouco dinheiro à prefeitura, que precisa de verbas para restaurar palácios, igrejas e monumentos, além de cobrir os custos de obras para preservar a cidade das águas. Críticos afirmam que a medida reforçaria a ideia de que Veneza é uma espécie de parque temático histórico-cultural. A taxa seria cobrada dos visitantes que chegam à cidade por trem, avião ou navios de cruzeiro.

Temores que vêm das águas

Há atualmente dois projetos para salvar a Rainha do Adriático de devastadoras cheias, como a de 1966, e da elevação das águas pelo derretimento das calotas polares, aponta Vittorio Zucconi, vice-presidente da Faculdade de Arquitetura da Universidade IUAV de Veneza. Um é o Insula, que consiste em elevar o nível das ruas, e o outro é o Mose, orçado em 3 bilhões de euros (R$ 7 bilhões), que prevê a construção de 79 barreiras móveis para isolar a Lagoa de Veneza do Mar Adriático. Estima-se que a cidade esteja afundando 1 centímetro a cada ano.

Professor de Design na Unisinos, Carlo Franzato nasceu e morou em Veneza até os 18 anos. Ele visitou sua cidade natal no ano passado e conta as expectativas em relação ao Mose, lançado em 2003:

– A previsão é de que seja concluído em 2014, mas dificilmente o prazo será respeitado. É uma obra imensa, muito impactante no ambiente e inédita. Há até quem ache que não funcionará e que duvide da real utilidade do projeto – relatou a ZH.

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