Tarso Genro e a maconha.

 ZERO HORA 24 de abril de 2011 | N° 16680

ARTIGOS

A maconha no poder, por Flávio Tavares*

A medíocre constelação de políticos que nos governa só não é pior nem se exaure nas trevas porque nela despontam algumas estrelas com luz própria, em condições de apontar caminhos. Entre nós, por exemplo, Tarso Genro foi sempre uma dessas escassas figuras lúcidas e sóbrias, capazes de entender o futuro a partir das lições do passado para interpretar o cotidiano. Por isto, foi visto como aglutinador e elegeu-se por folgada maioria absoluta.

Mas, o que dizer quando o governador Tarso Genro, ao proferir a aula magna da UFRGS, faz a defesa (quase apologia) do uso da maconha e, entre risos e aplausos, tece uma frase digna da antologia da tolice: “Nunca vi uma pessoa matar por ter fumado um cigarro de maconha!”.

E quem fuma cigarro de tabaco, mata? Por isso se restringe o tabaco ou se proíbe a propaganda na TV e rádio?

Se fosse conversa em roda de bar em fim da tarde, nada a objetar. Pode-se dizer que nunca vimos ninguém matar por beber cerveja e que o alcoolismo do “happy hour” não oferece perigo letal. No entanto, aula magna de Universidade é outra coisa: busca transmitir e amalgamar conhecimento. Ali, não se opina por opinar, nem se está num comício em busca de votos, mas tentando aprofundar teses num nível científico e inteligível.

***

Os “bixos” (ansiosos em conhecer o saber novo da Universidade) o que assimilarão para o futuro ao ouvirem o governador dizer que, na mocidade, só não usou maconha por questão de segurança, pois eram tempos de clandestinidade na ditadura, mas que sabe que a Cannabis “é muito saborosa”??

O uso das drogas é tema candente e é perverso não apenas por seu “componente econômico”, que chega ao poder e à política, como sustenta o governador. A perversão vai muito além e é inumana porque a droga afeta e degrada o sistema cerebral, em maior ou menor grau. A droga é a única doença que se semeia, que se vende e se compra. Sua maldade intrínseca é ser o oposto à beleza da vida. Ao viciar, subjuga e escraviza e, assim, se opõe aos princípios da liberdade humana, da iniciativa pessoal e do livre-arbítrio.

Não entendo como o lúcido Tarso Genro escorregou nessa casca de banana e sustentou a falácia trôpega (típica de “happy hour”) de que “muitos especialistas dizem que a Cannabis sativa faz menos mal do que o cigarro”. Estes “especialistas” em nada se especializaram e ignoram que a maconha entorpece o raciocínio, torna tudo lerdo, retarda a volição e a libido.

E, pior ainda, é porta de entrada ou caminho de passagem para “subir” às drogas pesadas, como heroína ou cocaína. Ou para “descer” à crueldade do “crack”.

***

O cidadão Tarso Genro tem suficiente formação intelectual para pensar e agir como queira, consultando apenas suas inclinações. Proferiu a aula magna, porém, na condição de governador estadual e, como tal, deve ser intérprete da coletividade que governa e à qual está subordinado. Pretender o contrário (que os governados se subordinem ao governante) seria voltar à carcomida ditadura. E ele (que, como muitos de nós, se opôs aos tempos ditatoriais) sequer imagina esse absurdo.

Para marcar o fim dos preconceitos e dos absurdos, foi elucidativo que tenha citado Marx e Heidegger para falar de democracia e República. Mas foi penoso ouvi-lo dizer que não tem “nenhum preconceito” com as drogas.

Brutal é ter preconceito ou discriminar o usuário da droga, vítima num processo escabroso. Mas entre a perversão e a vida, não há escolha. A não ser que se dê todo o poder à maconha…

*JORNALISTA E ESCRITOR

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