Zero Hora de 04 de setembro de 2011 | FLÁVIO TAVARES

A Legalidade.

Diferentes gerações me perguntam o mesmo nestes 50 anos do movimento com que o Rio Grande do Sul paralisou o golpe de Estado e, unido, impediu a entronização de uma ditadura em 1961: aquela mobilização popular poderia repetir-se hoje com o mesmo desprendimento e doação de ontem? Os mais moços, que não conheceram aqueles anos, indagam com ansiedade. Os mais velhos perguntam com cansaço, ofegantes pelo que ouvem ou veem agora. As perguntas me fizeram pensar, cotejar ou observar e me levaram a uma única resposta: não!

A mobilização do Movimento da Legalidade (assim, em maiúsculas) jamais poderia repetir-se. Primeiro, porque a Guerra Fria acabou e já não há uma direita fardada ou civil alimentada pelos Estados Unidos, pronta a romper a normalidade e a paz interna. Mas a razão fundamental é outra: os momentos históricos são únicos, forjados por grandes guias e comandantes que pregam o que fazem e fazem o que pregavam. Hoje, em meio aos escândalos e às mentiras, quem haveria assim na política em condições de mobilizar a sociedade?

Em 1961, tivemos Leonel Brizola, sua audácia e discernimento como governador. E, mais do que tudo, a confiança de não mentir, de ser impetuoso e contundente, mas nunca vingativo. Sua palavra franca e direta uniu civis e militares pela primeira e irrepetível vez. Quem temos hoje, além de hábeis catadores de votos?

Alguém já imaginou a multidão (sob ameaça de bombas) acorrendo, hoje, à Praça da Matriz como escudo humano para defender a pregação do governador, como em 1961? Nem os ocupantes de cargos de confiança do governo iriam!

A diferença estará no povo ou no governador??

Há 50 anos, o governador lançou sua palavra franca (nunca dúbia nem pedante) em defesa das liberdades ameaçadas e, assim, uniu até os adversários. Hoje, só com cargos ou propinas tipo “mensalão”… Naqueles anos, toda semana Brizola discorria em público sobre a situação do Estado e do país, alertava contra a espoliação do capital internacional – “as bombas de sucção, sugando a economia e os talentos” – ou insistia na necessidade de desenvolver tecnologias próprias. Dizia e agia. Os que vieram depois pouco fizeram e nada nos disseram. O governador Tarso Genro (de quem se esperava muito), dialogou sobre o que na aula inaugural da UFRGS de 2011? Sobre as maravilhas da Cannabis sativa!

As fábricas de sapatos ou de elevador se fecham ou se vão daqui, e vamos à Coreia pedir que venham de lá.

Em 1961, mobilizada pelo governador, a Brigada Militar foi a primeira garantia armada das liberdades da população. Sob frio e chuva, fuzil na mão, os brigadianos dormiam pouco, mas confiavam no governador, ombro a ombro com ele contra o despotismo. Exatos 50 anos depois, os soldados da Brigada – tratados como párias pelo poder – têm de rebelar-se para reivindicar salários e meios de lutar contra o crime.

Com remuneração digna e prestigiadas, as professoras organizaram as fichas dos voluntários civis nos comitês de resistência para a luta, em 1961. Hoje, têm de apelar a greves e pressões para serem ouvidas.

Definitivamente, o Movimento da Legalidade é irreproduzível!

FLÁVIO TAVARES.
JORNALISTA E ESCRITOR
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Um comentário em “

  1. Quase 50 anos depois do grande encontro em 13 de março de 1964, as vozes da rua voltam a pedir as reformas de base. Estamos atrasados cinquenta anos…que poderão ser mais…que isso..lamentável.

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