O medo de Karol

Por MOISÉS MENDES na ZH de 17/02/2013.

O repórter Geneton Moraes Neto fez uma entrevista que eu queria ter feito. O grande Geneton conversou com dom Eugênio Sales, em 2010, e viu o arcebispo expor sua alma. Num dos melhores momentos da entrevista, o religioso fala do medo revelado por Karol Józef Wojtyla, logo depois de eleito papa em 1978.

Quando foi informado de que havia sido escolhido, o polonês avisou que seus colegas poderiam ter cometido um equívoco. Por que o elegeram se ele não se sentia em condições de ser papa? Dom Eugênio assegurou a Geneton que aquela era uma manifestação sincera de um homem apavorado:

_ Ele não queria aceitar.

Por alguns minutos, até ser convencido pelos cardeais de que não poderia recuar, Karol vacilou. Estava paralisado, como o guri que os colegas de colégio elegem, à revelia, para ser orador e líder da turma, da escola e de toda a congregação. E para o resto da vida. Karol e dom Eugênio tinham 58 anos.

Medo. É o que transpirava dos afrescos de Michelangelo naquele 16 de outubro de 1978 na Capela Sistina. Nesse mundo de irrelevâncias, é bom saber que um papa eleito sente e expressa pavor. Não é um Sarney fraquejando, como fraquejou, diante da possibilidade de substituir o Tancredo morto. Não é Zico substituindo Pelé.

Você, que já foi chamado para um cargo de comando e titubeou, você sabe que nada como um cargo de direção para expor caráter, medos e imposturas. Um gerente ou um diretor é alguém que chegou ao topo, de um morrinho ou do Everest, muitas vezes sem pulmão, sem pernas e sem cabeça para estar ali.

Karol não havia sido indicado para presidir a GM, a Gilette ou a GE e tampouco para salvar o banco Lehman Brothers. Fora escolhido para suceder ao carismático João Paulo I como o mais alto executivo de Deus na terra.

Karol não queria ser papa. Albino Luciani, seu antecessor, também não. Luciani foi João Paulo I por apenas um mês. Dom Eugênio diz na entrevista a Geneton que é provável que Luciani, surpreendido pela eleição, tenha morrido sob uma pressão insuportável.

Pois sabe-se que Joseph Ratzinger queria muito ser papa. E anunciou a renúncia dizendo que ser papa não era apenas cumprir a missão com obras e palavras, mas sofrendo e rezando. João Paulo II rezava, sofria e degradava-se a cada aparição pública.

E Ratzinger? Qual foi o limite do seu sofrimento? É inevitável, observando-se o perfil de Bento XVI, pensar que o papa alemão, racional, intelectual, o guardião inflexível dos dogmas da Igreja, tenha decidido continuar rezando e sofrendo sem os encargos que tanto desejara.

O racionalismo venceu Ratzinger no momento crucial em que teve de escolher: continuava sendo um papa curvado publicamente à fragilidade física, como João Paulo II, ou se recolhia ao quartinho dos fundos?

A hora de ir embora _ do presidente de uma empresa, de um Sarney (que não vai embora nunca), de um Pelé, de um artista _ não tem nada das particularidades de uma decisão como a de Ratzinger.

Um papa está em missão vitalícia. Rezar, sofrer e envelhecer, sempre rezando e sofrendo, como líder exemplar, é da essência dessa missão cristã, até o que restar de vida. Ou um dogma da própria Igreja deixa então de ter sentido.

O sucessor de Bento XVI deve ser alguém que não queira tanto ser papa. Deve ter a delicadeza franciscana de um Albino Luciani e a sincera indecisão de um Karol Józef Wojtyla. Homens valentes, em quaisquer missões, inclusive os mais altos representantes de Deus (um dia, quem sabe, serão também mulheres), assumem que sentem muito medo.

Moisés Mendes é Jornalista.

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