A RENÚNCIA

Por FLÁVIO TAVARES na ZH de 17/02/2013.

 

A decrepitude física não é um mal, é apenas o testemunho de um itinerário. Ou um testemunho da vida e dos longos anos vividos. Penso nisto, agora, na renúncia do papa Bento XVI. Durante anos, quando cardeal, Joseph Ratzinger revelou-se rígido, impermeável ou surdo ao mundo profano. Tão surdo, que não ouviu a voz dos novos teólogos do século 20, como o suíço Hans Kung ou nosso Leonardo Boff, e os condenou ao silêncio por tentarem fundir a fé cristã com a sociedade e o povo. Já idoso, assumiu o papado com a sabedoria dos longevos e, em sete anos e 10 meses, compreendeu que não teria forças para enfrentar o mundo da sociedade de consumo e do hedonismo, que ameaça devorar a Igreja que o papa deve preservar.

Bento XVI renunciou para não repetir a década final de vida do seu antecessor. João Paulo II, com mal de Parkinson extremo, quase sem fala, comunicando-se por gestos e monossílabos, nunca pensou em renúncia. Era um símbolo da segunda metade do século 20 (a partir da sua Polônia natal derrotara o comunismo soviético) e os símbolos não renunciam ao que são. Em contraposição, mesmo com marca-passo cardíaco, o papa Ratzinger tem hoje melhor saúde do que o papa Wojtyla nos últimos 10 ou 15 anos da sua longa permanência no Vaticano. O atentado de maio de 1981 debilitou sua saúde e a Cúria Romana apropriou-se da Igreja, suplantando o Papa.

***

O carismático Wojtyla viajava mundo afora. Era um propagandista ou “relações-públicas” da Igreja que a Cúria comandava em Roma. Um de seus integrantes, o cardeal Ratzinger, dirigia no Vaticano uma “nova Inquisição” cuja fogueira pela “pureza da fé” consistiu em condenar ao silêncio mais de 150 teólogos progressistas. Em contrapartida, elaborou o Novo Catecismo, instituindo os pecados sociais, como a exploração do trabalho. Ou sustentou a nova visão teológica de que o inferno é um estado de espírito ou de comportamento, não uma fornalha no Além. Punia os progressistas, mas oficializava ideias progressistas.

Eleito papa, o austero Ratzinger não se contentou em ser propagandista. Na visita à Austrália, aclamado nas ruas, lembrou que “o Papa não é um astro de rock”, mostrando que queria ser chefe efetivo da Igreja. Mas a Cúria Romana dominava a Igreja, interessando-se mais pelos aspectos internos do que pela conexão com o mundo. Com germânica persistência, ele tentou tomar as rédeas e designou o cardeal Bertone, de sua máxima confiança, como secretário de Estado, em lugar do astuto cardeal Sodano, ligado aos burocratas da Cúria. E aí (lembram os que conhecem os labirintos do Vaticano) se ampliam os fuxicos que culminam com o escândalo do mordomo papal “vendendo” documentos do banco do Vaticano e outros de caráter reservado, para atingir Bertone e salpicar o próprio Papa.

“O Vaticano não é um lugar de santos, mas de homens pecadores e a própria Igreja é pecadora” _ disse-me dom Hélder Câmara em 1981, em Recife. Agora, Bento XVI renuncia sob a amargura de não ter podido calar a Cúria conservadora (da qual fez parte, antes) e retomar princípios éticos nos quais crê.

Como um vitral, sua trajetória projetou luzes e sombras, tal qual a história da Igreja. De uma Igreja que já não tem o prestígio nem o domínio de meio século atrás, num momento em que o capitalismo predador do século 21 inventou um novo e único deus _ o ato de lucrar e consumir.

 

Flávio Tavares é Jornalista e escritor

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