Dois vigários

Por LUIZ ANTÔNIO ARAUJO na ZH de 17/02/2013.

Ao ler entrevista do teólogo e escritor Leonardo Boff ao repórter Léo Gerchmann, de Zero Hora (http://migre.me/dfxLO), lembrei de uma noite quente de outubro de 1984. Eu estava entre centenas de estudantes de Comunicação reunidos num auditório da Universidade Metodista de Piracicaba durante um congresso da União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC). O Brasil ainda vivia sob o regime militar, mas, no campus de Piracicaba, discutia-se o futuro. Tudo tinha o tom de celebração próprio daqueles que se consideravam um pouco responsáveis pela derrubada da ditadura. Uma conferência do procurador de Justiça Hélio Bicudo, o homem que denunciara o Esquadrão da Morte, terminou com público e conferencista dançando ciranda ao som de um pandeiro. Sentada no centro de um gramado, a atriz e deputada federal Bete Mendes tinha de gritar para ser ouvida pela pequena multidão de jovens que a cercavam. No auditório em que eu me encontrava, o tema era o silêncio. Os palestrantes eram os frades Leonardo Boff e seu irmão, Clodovis Boff, e o escritor Frei Betto.

Falava-se de silêncio, mas havia barulho. O catarinense Leonardo tinha acabado de se tornar réu em um processo perante a Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, órgão do Vaticano encarregado de zelar pela pureza da doutrina católica. Sua teologia, expressa em livros como Igreja: Carisma e Poder, pregava a opção preferencial da Igreja pelos pobres. Para a Cúria romana, essas eram ideias mais marxistas do que cristãs. Não que as preocupações sociais fossem novidade para a Igreja. Havia um século, o papa Leão XIII havia escrito um documento sobre as condições de vida dos trabalhadores. A cúpula católica, porém, era solidamente conservadora. O Vaticano tinha sido parceiro leal de Mussolini. Mantivera respeito tolerante diante de Hitler e omissão diante do Holocausto. Foi preciso esperar os anos 1960 para que a Igreja respirasse novos ares. Com o Concílio Vaticano II, a hierarquia acenou com uma guinada modernizante, abandonando muito do que cheirava a passado, da frieza diante da desigualdade à missa em latim. Ao bater de asas de borboleta na cúpula, seguiu-se um terremoto entre os fiéis. No Terceiro Mundo, sacerdotes e noviços abraçaram ideias como as dos irmãos Boff e de Betto _ este, aliás, ainda noviço dominicano, fora um entre muitos a colaborar com o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN). Eram os “padres de passeata” e as “freiras de minissaia”, que tanto horrorizavam o dramaturgo Nelson Rodrigues.

A reação do Vaticano contra a chamada Teologia da Libertação não tardou. Foi comandada por dois homens que moldaram 30 anos de história do catolicismo: Karol Wojtyla e Joseph Ratzinger. O primeiro tornou-se papa João Paulo II. O último, teólogo desiludido com o Concílio Vaticano II, chegou a prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Encarregado de dedetizar a teologia de qualquer viés esquerdista, enquadrou seu ex-aluno Leonardo Boff, indicando-lhe o mesmo banco dos réus que um dia acomodara Galileu Galilei. Em 1985, Boff foi condenado a guardar “silêncio obsequioso” sobre suas ideias e destituído de funções editoriais e de magistério. Essa primeira punição foi revertida, mas em 1992 Boff sofreu nova condenação. Para continuar agindo e pensando como o cristão que aprendera a ser, teve de abandonar a Igreja. Suas lembranças sobre o algoz, hoje papa Bento XVI, são eloquentes na entrevista a ZH: “Em vez de fazer festa, como todos faziam, ele me convidava para uma caminhada. Conversávamos muito, trocávamos livros, ele apreciava muito a minha teologia. Depois, como cardeal, mudou. Ele me chama, ainda hoje, de ‘teólogo piedoso'”. Léo Gerchmann perguntou-lhe havia quanto tempo não via Ratzinger. Boff respondeu:

_ Desde 1984.

Naquele ano distante, o mesmo do encontro em Piracicaba, eram o frei e o cardeal. Hoje, são apenas Boff e, daqui a poucas semanas, Ratzinger. No poema Dois Vigários, Drummond fala de uma dupla de sacerdotes cujos caminhos se bifurcam pela vida afora. Um deles evolui para a devassidão, outro, para a santidade. Numa noite, são simultaneamente fulminados por dois raios. Entre os túmulos vizinhos, brota uma flor “que não se sabe até hoje / cinquenta anos se passaram / se é de compaixão divina / ou divina indiferença”. Entre Boff e Ratzinger, não há nenhuma flor. Apenas um número: 1984.

Luiz Antônio Araujo é Jornalista.

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