Pio XI x Hitler

Reproduzo a coluna de Ricardo Orlandini:

20.03.2017 | Opinião

Mit brennender Sorge

Sabemos que o “papel aceita tudo”, como diz o velho ditado popular, mas a verdade histórica é implacável.

Os amigos que me acompanham sabem que aqui no meu site tenho uma seção que muito me agrada, o Hoje na História, onde coloco links e informações de fatos importantes de nossa história utilizando principalmente dados públicos da Wikipédia.

Sempre procuro checar e re-checar as informações, conferindo a veracidade dos fatos, as datas corretas e os personagens envolvidos. Procuro apenas retratar a verdade histórica, sem criar nenhum fato novo, nem tampouco reescrever esses fatos.

Desde jovem ouvi falar das ligações da Igreja Católica Apostólica Romana, em especial o Papa Pio XI, com o nacional-socialismo e de Adolf Hitler. Afirmam e afirmavam alguns, que Pio XI e o Vaticano apoiavam os nazistas.

Existe até gente que diz que o Vaticano apoiava a ODESSA (Organisation der ehemaligen SSAngehörigen, que significa “Organização de antigos membros da SS“), uma suposta organização nazista internacional secreta criada no final da Segunda Guerra Mundial com o objetivo de facilitar rotas de fuga de criminosos de guerra para a Argentina, o Brasil ou o Oriente Médio.

Não vou negar que isso possa ter existido, pois o que quero fazer hoje é, eventualmente, reparar um erro que até eu mesmo imaginava ser verdadeiro.

Falo da carta encíclica do papa Pio XI, Mit brennender Sorge (“Com ardente preocupação”), datada de 14 de março de 1937, que condena o nacional-socialismo e o racismo.

A encíclica foi publicada alguns  dias antes de Divini Redemptoris, uma condenação similar ao comunismo na Rússia publicada em 19 de março de 1937.

É fato que em 1933, Pio XI negociou uma concordata com a Alemanha, mas Hitler deixou de honrar seus compromissos, o que fez com que as críticas do Papa se tornassem mais severas nos anos seguintes.

Mit brennender Sorge é considerada como o primeiro documento público de um chefe de Estado europeu a criticar o nazismo. Em uma das suas passagens mais célebres, contém o que é frequentemente interpretado como um ataque pessoal ao Führer:

Aquele que, com sacrílego desconhecimento das diferenças essenciais entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples homem, ousar colocar-se ao nível de Cristo, ou pior ainda, acima d’Ele ou contra Ele, um simples mortal, ainda que fosse o maior de todos os tempos, saiba que é um profeta de fantasias a quem se aplica espantosamente a palavra da Escritura: ‘Aquele que mora nos céus zomba deles’ (Sal 2,4).

A encíclica também desperta interesse por ser um dos poucos documentos oficiais da Santa Sé a ter a sua versão oficial em vernáculo. No caso, por ser direcionada especificamente à Igreja da Alemanha, o pontífice optou por escrevê-la em alemão.

Concluída a redação, cópias da encíclica foram enviadas clandestinamente à Alemanha em motos Malaguti, para não serem apreendidas pela Gestapo. Em seguida, foram reproduzidas por oficiais gráficos da Igreja Católica e distribuídas aos bispos, padres e capelães, com ordens de que fossem lidas em todas as paróquias após a homilia da missa matutina do dia 21 de março de 1937, festa de Domingo de Ramos. Acredita-se que a data tenha sido escolhida por ser uma das festas do ano litúrgico em que a presença de fiéis e autoridades costuma ser máxima, aumentando o impacto da mensagem. A retórica usada pelo Papa Pio XI no documento é de uma agressividade raramente vista em documentos papais.

A reação de Hitler por meio da Gestapo foi violenta: recrudesceu imediatamente a perseguição aos católicos alemães, ocasionando a prisão de mais 1.100 clérigos, e ordenou a veiculação de uma campanha publicitária anticlerical sob a direção do ministro Joseph Goebbels. Publicada ainda em 1937, época em que Adolf Hitler gozava de certo prestígio na opinião pública ocidental, e a guerra parecia uma possibilidade remota, a encíclica surpreendeu pelo tom duro e foi alvo de algumas críticas na imprensa secular e de alguns católicos laicos, que ainda defendiam a convivência pacífica com o Terceiro Reich e não compreenderam a atitude do Pontífice.

Para escrever o documento, Pio XI contou com a colaboração e as informações dos cardeais alemães Adolf Bertram, Michael von Faulhaber e Karl Joseph Schulte e dos dois bispos mais contrários ao regime hitlerista: Clemens von Gallen e Konrad von Preysing, além da intervenção decisiva do Cardeal Eugênio Pacelli – futuro Papa Pio XII – e dos seus auxiliares alemães , Mons. Ludwig Kaas e dos jesuítas Robert Leiber e Augustin Bea.

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Na época foi uma surpresa geral para os fiéis, as autoridades e a polícia, a leitura da encíclica nas missas do domingo de Ramos, 21 de março de 1937, em todos os templos católicos alemães, que eram então mais de 11.000 igrejas. Seu impacto entre as elites dirigentes alemãs foi forte. Em toda a breve história do Terceiro Reich, nunca recebeu este na Alemanha uma contestação de amplitude e gravidade que se aproximasse da que se produziu com a Mit brennender Sorge. No entanto, o controle intensivo que o regime exercia sobre a imprensa e a falta de liberdade de circulação de informações impediu que o impacto fosse maior entre as massas, sendo seu conteúdo prontamente censurado e respondido com uma forte campanha publicitária anticlerical. No dia seguinte a leitura nos púlpitos, todas as paróquias e escritórios das dioceses alemãs foram visitados por oficias da Gestapo que apreenderam as cópias do documento.

Como era de se esperar, no mesmo dia o órgão oficial nazista, Völkischer Beobachter, publicou uma primeira réplica à encíclica – que foi também a última. O ministro alemão da propaganda, Joseph Goebbels, foi suficientemente perspicaz para perceber a força do documento e entender que o mais conveniente era ignorá-lo completamente, fazendo uso do extensivo controle dos meios de comunicação que o Reich já possuía na época para censurar o seu conteúdo e qualquer referência a ele.

Após a leitura e publicação da encíclica, as perseguições anticatólicas tiveram lugar, e as relações diplomáticas Berlim-Vaticano ficaram severamente estremecidas. Em maio de 1937, 1.100 padres e religiosos são lançados nas prisões do Reich. 304 sacerdotes católicos são deportados para Dachau em 1938. As organizações católicas são dissolvidas e as escolas confessionais interditadas.

Até a queda do regime nazista, cerca de onze mil sacerdotes católicos (quase metade do clero alemão dessa época) “foi atingido por medidas punitivas, política ou religiosamente motivadas, pelo regime nazista“, terminando muitas vezes nos campos de concentração.

Muito do que aqui escrevo foi encontrado na Wikipédia, que possui um critério muito forte de veracidade das informações. Pesquisei textos da encíclica Mit brennender Sorge em português, em alemão, em inglês, em italiano, e no próprio Site do Vaticano.

Não estou induzindo nem tentando formar a opinião de ninguém. Estou passando uma informação verídica que, no mínimo, corrige falsas informações que denegriram e ainda denegram a imagem do Vaticano e do Papa Pio IX e sua posição durante a Segunda Guerra Mundial.

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2 comentários em “Pio XI x Hitler

    1. “Certos publicistas católicos não fazem mistério dessa atitude política da hierarquia romana e procuram justificá-la alegando que os comunistas e os elementos progressistas combatem o cristianismo em geral e o catolicismo muito especialmente.” E não é verdade?
      “É isso pura calúnia destinada a impedir a aproximação entre crentes e comunistas, na base de um programa democrático comum.” Na essência, o cristão não pode ser comunista.

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