“O ISLÃO, AS FUNDAÇÕES DESTA RELIGIÃO NÃO SÃO COMPATÍVEIS COM A DEMOCRACIA” – FRAUKE PETRY (AFD)

“O Islão, as fundações desta religião não são compatíveis com a democracia. E não é só o AfD (Alternativa para a Alemanha) que o diz. Agora, que lançámos a discussão, muitos políticos admitem exatamente isso, mas ignoraram os problemas durante anos. Por isso, penso que a nossa missão na Alemanha é tornar o problema visível para que se encontre uma solução. Respeitamos os muçulmanos modernos, que gostam de viver na Alemanha, que se sentem alemães, que querem ficar aqui. A maioria adaptou-se às nossas tradições. Mas, aqueles que não querem adaptar-se, devem partir e ir viver onde quiserem, mas não na Europa, nem na Alemanha. É isso que dizemos”. Frauke Petry – Líder do AfD

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Se as legislativas fossem agora, o partido anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD) poderia obter 16% dos votos, segundo uma sondagem publicada esta sexta-feira. A força política voltou a provocar a surpresa nas duas últimas eleições locais e passou a ter deputados em 10 das 16 assembleias regionais, aproveitando a contestação à política de portas abertas aos migrantes da chanceler Angela Merkel. A euronews entrevistou a líder do partido.

*Valerie Zabriskie – euronews:
Um dos motivos para a sua crescente popularidade é que dizer coisas que as pessoas pensam ou que outros políticos não dizem. Não há, eventualmente, um perigo em dizer coisas que os outros não dizem?*

Frauke Petry – Líder do AfD:

“Se ainda acreditarmos em soluções que são o resultado de uma discussão aberta, então temos de acreditar que as discussões podem resolver problemas e que não encobrem problemas. Nós, os alemães, somos peritos a encobrir problemas, em procurar consensos, em procurar um acordo antes mesmo de analisarmos o problema. Penso que é por isso que muitos cidadãos já não acreditam nos partidos tradicionais e nos políticos, porque simplesmente sentem que não são levados a sério pelos políticos e também porque se sentem traídos por esses políticos, porque eles não dizem a verdade”.

Em relação à Europa, o seu partido começou como uma reação à crise na zona euro e aos resgates. Está contra a União Europeia?

“Pensamos que o que tivemos nos anos 60, nos anos 70 e mesmo no início dos anos 80 tornou a Europa bastante mais forte do que é hoje. O projeto do Euro e também a tentativa de criar uma Constituição europeia mostraram que a grande maioria dos países europeus não está disposta a abdicar da sua soberania. Penso que isso é normal, é uma decisão soberana e não acredito que vamos ajudar a Europa a manter-se forte num contexto de competição à escala mundial se tentarmos colocar tudo e todos ao mesmo nível, como acontecia no comunismo. O projeto comunista na Europa de Leste falhou estrondosamente no final dos anos 80. Agora, estamos a tentar fazer o mesmo na Europa. Não vai resultar”.

Em relação, por exemplo, ao Norte de África, há questões sobre a religião, a forma como as mulheres são tratadas… mas não estará a criar um bode expiatório?

“O Islão, as fundações desta religião não são compatíveis com a democracia. E não é só o AfD (Alternativa para a Alemanha) que o diz. Agora, que lançámos a discussão, muitos políticos admitem exatamente isso, mas ignoraram os problemas durante anos. Por isso, penso que a nossa missão na Alemanha é tornar o problema visível para que se encontre uma solução. Respeitamos os muçulmanos modernos, que gostam de viver na Alemanha, que se sentem alemães, que querem ficar aqui. A maioria adaptou-se às nossas tradições. Mas, aqueles que não querem adaptar-se, devem partir e ir viver onde quiserem, mas não na Europa, nem na Alemanha. É isso que dizemos”.

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OS NOVOS MUNDOS DOS ITALIANOS

OS NOVOS MUNDOS DOS ITALIANOS (Voltaire Schilling – Zero Hora, 03/10/1995).

“… ché l’antiquo valore ne gli italici cor’ non è anchor morto.”
Petrarca – Canzoniere, 1336
“… poiché l’antico valore nei cuori del popolo italiano non è ancora spento.”

voltaire

Durante aproximadamente três séculos, do 14 ao 17, os séculos do Renascimento, coube a um conjunto variado, mas genial, de italianos lançarem  as bases do mundo moderno. Sua ilustre ancestralidade romana, seu contato com a cultura grega, a riqueza e a prosperidade de suas cidades-estados, como Veneza, Gênova, Milão, Florença, tornaram possível a conquista de “novos mundos”, expressão aqui usada não apenas para determinar a descoberta de terras ignotas no além-mar, mas também no significado de outros desbravadores nos campos das artes, ofícios e ciências.

Nas letras, esse novo mundo será aberto pelo poeta florentino Dante Alighieri, que versejou, entre 1313 e 1321, uma verdadeira catedral literária inteiramente em italiano, e não em latim, como comumente acontecia: a Divina Comédia. Dante percebeu que o futuro pertencia à língua nacional, definida como “luz nova, sol novo, que surgirá onde o velho irá se por e fará luz aos que vivem nas trevas obscurecidas pelo sol antigo, que não brilha mais para eles”.

Também florentinos foram os Médicis, riquíssima família de banqueiros, responsáveis pela expansão financeira e mercantil da Europa, entre os séculos 14 e 17. Ao inaugurarem agências em quase todas as grandes cidades, impulsionaram o capitalismo –confinado então apenas às comunidades medievais-, tornando-o um sistema crescentemente cosmopolita.

A Leonardo da Vinci, Rafael e Miguelângelo coube desbravarem pela pintura, escultura e arquitetura as complexas possibilidades do humanismo emergente, revolucionando as técnicas da perspectiva e da proporção, com a aplicação, nas obras de arte, de um vastíssimo conhecimento científico e anatômico.

O gênio de Leonardo, não satisfeito, ainda expandiu-se para a concepção de máquinas voadoras, submarinos e carros autopropulsionados e refinados projetos urbanísticos.

Aos marinheiros e célebres almirantes, Cristóvão Colombo, Giovani Caboto e Américo Vespúcio e suas fantásticas viagens transatlânticas, realizadas entre 1492 e 1504, devemos finalmente a chegada ao Novo Mundo tal como é entendido. Local de refúgio de milhões de europeus que partiram do Velho Continente, fugindo da fome e da opressão, para construir uma nova civilização nas terras da promissão.

Com o tratadista e escritor Nicolau Maquiavel, vislumbrou-se a política, não só tornada arte de governar, mas também um continente autônomo, distanciado da moral comum, sujeita a regras, normas e lógicas próprias. Por mais chocante, sob o prisma ético que possa, ainda hoje, nos parecer seu O Príncipe, de 1512, descortinou, para governantes e cidadãos, a “verità effetuale”, a existência do frio, calculista, mas extremamente real do universo do poder.

Na música, esse novo mundo foi construído pelo rompimento com a monocórdia do canto medieval e a crescente aceitação da polifonia de Giovani Pierluigi Palestrina, consagrada na sua Missa do Papa Marcelo, de 1555. Modificação tonal que permitiu que Cláudio Monteverdi inaugurasse um gênero radicalmente novo: a ópera. Ao homenagear Orfeu –o apaixonado inventor da lira e do culto órfico- incluindo de forma articulada a representação, o cenário, a orquestração e o canto lírico, antecipou, já em 1607, o que se tornou hoje o cinema.

Graças a Galileu Galilei, cientista florentino, e a sua pequena luneta, por ele aperfeiçoada em 1609, podemos nos encantar com a vastidão não só de um novo mundo celestial, por ele desanuviado, mas também de um cosmo inteiro. Apoiado em Copérnico, destruiu a concepção de universo fechado, que presidiu a esfera da ciência por 17 séculos, desde os tempos de Ptolomeu. Seu opúsculo O Mensageiro das Estrelas, de 1610, contendo as primeiras observações feitas pelo telescópio, foi o precursor das enviadas pelo super telescópio Huble, que hoje vaga pelos espaços inimagináveis.

Dessa forma, em todos os atuais campos de interesse humano, por detrás deles, sempre existiu a fértil engenhosidade, o acurado senso estético ou a prodigiosa imaginação inventiva de um veneziano, de um genovês, de um florentino, de um romano, de um italiano, enfim, todos tornados “uomini universali”.

Olívio Dutra e a Ação Penal 470

Olívio considera justa a prisão dos mensaleiros.

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Petista afirma que respeita a decisão do ministro Joaquim Barbosa.

Jimmy Azevedo: Jornal do Comércio de 21 de novembro de 2013.

 ‘Não deveria ser diferente. O PT não pode ser jogado na vala comum’

Destoando do discurso de lideranças petistas, intelectuais de esquerda e juristas, o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra não acredita que houve cunho político na condenação e na prisão dos correligionários José Genoino, José Dirceu e Delúbio Soares, detidos, na semana passada, pelo escândalo do mensalão durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Funcionou o que deveria funcionar. O STF (Supremo Tribunal Federal) julgou e a Justiça determinou a prisão, cumpra-se a lei”, analisa o ex-presidente estadual e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT).

No entendimento de Olívio Dutra, o desfecho da Ação Penal 470, conhecida popularmente como mensalão, foi uma resposta aos processos de corrupção que, historicamente, permeiam a política nacional, independentemente de partidos.

Sobre a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, de ordenar a prisão dos réus no processo sobre a compra de parlamentares por dirigentes petistas para a aprovação de projetos do governo Lula, Olívio disse que cada instituição tem seu funcionamento. “Até pode ser questionado, mas as instituições têm seus funcionamentos. O que não se pode admitir é o toma-lá-dá-cá nas práticas dos mensalões de todos os partidos, nas quais figuras do PT participaram”, avalia o petista histórico. O ex-governador gaúcho reitera que tem respeito à história de lutas de José Dirceu e Genoino, mas que em nada o passado de combate à ditadura militar abona qualquer tipo de conduta ilícita. “Há personalidades que fazem política por cima das instancias partidárias e seguem seus próprios atalhos. Respeito a biografia passada dessas figuras que lutaram contra a ditadura, mas (a corrupção) é uma conduta que não pode se ver como correta”, critica.

Ironicamente, Olívio Dutra, então ministro das Cidades de Lula, foi isolado por políticos fortes no governo, como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, ainda antes do escândalo do mensalão vir à tona.

Em julho de 2005, Olívio é retirado da pasta para dar lugar a Márcio Fortes, do Partido Progressista (PP), sigla também envolvida no escândalo de corrupção. Olívio diz que o PT está acima de indivíduos, e acredita que se fez justiça no caso de corrupção.

“Não deveria ser diferente (sobre as condenações e prisões). Um partido como o PT não pode ser jogado na vala comum com atitudes como esta. Com todo o respeito que essas figuras têm, mas não é o passado que está em jogo, é o presente, e eles se conduziram mal, envolveram o partido. O sujeito coletivo do PT não pode ser reduzido em virtude dessas condutas. O PT surgiu para transformar a política de baixo para cima. Eu não os considero presos políticos, foram julgados e agora estão cumprindo pena por condutas políticas”, dispara o líder petista.

‘Nunca se governa em condições ideais’, avalia o ex-governador

Distante da vida política, mas a par da vida partidária do PT estadual e nacional, o ex-governador gaúcho Olívio Dutra dedica os dias à família e aos estudos de Latim na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Formado em Letras pela Ufrgs, Olívio pediu reingresso para aproveitar cadeiras não cursadas. Além disso, ocupa o tempo em livrarias da cidade, bem como em espetáculos culturais, gosto que fez com que ele se integrasse à Associação Amigos do Theatro São Pedro.

Ovacionado em eventos públicos pela militância petista e integrantes de movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Olívio faz uma análise da conjuntura atual e os cenários para que o PT consiga reeleger o projeto de Tarso Genro.

Para o Galo Missioneiro, apelido dado por admiradores, o distanciamento de forças políticas, tais como o PDT e o PSB, do governo Tarso Genro é algo natural em vésperas de eleição eleitoral, ainda mais pela conjuntura. O PSB, por exemplo, terá provavelmente o governador pernambucano Eduardo Campos como candidato à presidência da República na disputa contra a presidente Dilma Rousseff (PT).

No Estado, os socialistas não descartam a possibilidade, inclusive, de uma aliança com o Partido Progressista (ex-Arena) na candidatura da senadora Ana Amélia Lemos ao Palácio Piratini, ou com o PMDB, que poderá lançar o ex-prefeito de Caxias do Sul José Ivo Sartori.

“A candidatura própria do PDT é uma hipótese ainda. O fato de os partidos tomarem outros rumos antes do pleito não é novidade. As forças se estremecem quando se aproxima a eleição. Mas isso não é o ideal no campo democrático popular”, analisa Olívio.

O ex-governador entende, no entanto, que nunca se governa em situação tranquila, pois há interesses pessoais e partidários distintos dentro do tabuleiro político. “Os governos (Dilma e Tarso) fazem um grande esforço para o funcionamento da máquina pública em prol da sociedade, não como projeto pessoal, para atender à maioria do povo. Nunca se terá condições ideais, claro, pois há uma pressão enorme dos poderosos.”

Quando esteve no Palácio Piratini (1999-2002), seu governo foi alvo de uma CPI sobre uma suposta relação com o jogo do bicho. O Ministério Público não aceitou as acusações e decidiu não denunciar o petista e outros citados. A primeira gestão petista no Piratini também foi criticada por setores contrários à reforma agrária e à implementação de políticas de desenvolvimento social.

Na avaliação do governo Tarso Genro, o petista acredita que tem tido avanço nas questões sociais e na consolidação de políticas apresentadas. “O governo pode fazer mais e melhor na execução de um programa. Nunca se governa em situação ideal. Há muito o que fazer para um projeto de desenvolvimento sustentável. Por isso, defendo a reeleição”, disse Olívio, que também reiterou não desejar mais ser candidato a cargos públicos.

‘Há um clima de revolta muito grande’, avaliam deputados após visita aos condenados detidos

Uma comitiva formada por 26 deputados federais do PT visitou na tarde de ontem alguns presos do processo do mensalão, instalados no Complexo Penitenciário da Papuda. O encontro durou cerca de 30 minutos e aconteceu em sala reservada para a conversa. Estavam presentes o deputado licenciado José Genoino (PT), José Dirceu (PT), Delúbio Soares (PT) e Romeu Queiroz (ex-PTB).

“O que notamos é um clima de revolta muito grande pelas circunstâncias em que a prisão ocorreu, completamente ao arrepio da legislação, aos procedimentos (…) normais”, afirmou o deputado federal Nelson Pellegrino (PT-BA). Entre os parlamentares que visitaram os presos, estavam o gaúcho Marco Maia, além de Iriny Lopes (ES), Fátima Bezerra (RN) e Vicentinho (SP).

Em nome dos demais petistas, Pellegrino afirmou que não houve críticas às condições da prisão, embora haja uma preocupação sobre a situação da saúde de Genoino. “Até agora, as juntas médicas atestaram a gravidade da situação do deputado Genoino e atestaram que ele não pode estar custodiado aqui nesta unidade. Esta unidade não tem sequer um sistema de emergência”, reclamou, afirmando ainda ser precária a situação do colega.

Pouco depois da visita, houve discussão entre manifestantes do PT e mulheres que aguardavam desde a manhã o momento de visitar filhos e maridos no complexo da Papuda, cuja entrada só será permitida a partir da manhã de hoje. Elas começaram a gritar frases como “puxa-saco de ladrão” para os deputados.

Para Olívio Dutra, mensalão foi sucessão de malfeitos.

Conteúdo do Estadão no Jornal do Comércio de 22 de novembro de 2013.

Olívio se manifestou por meio de nota nesta sexta-feira

Liderança histórica do PT, o ex-governador do Rio Grande do Sul, ex-ministro das Cidades e ex-prefeito de Porto Alegre Olívio Dutra disse, nesta sexta-feira (22) que “o mensalão foi uma sucessão de malfeitos, desde os movimentos políticos que lhes deram origem até seu julgamento, condenação e aprisionamento”. Dutra criticou dirigentes partidários que participaram do episódio e a “mão pesada” do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

“As condutas que originaram a Ação Penal 470 não foram revolucionárias nem transformadoras da política e caíram como uma luva nas mãos dos que sempre quiseram marcar a paleta da esquerda com o ferro em brasa da corrupção, agora com a manopla do presidente do Supremo”, analisou. “Infelizmente contribuímos para isso”, prosseguiu, referindo-se à participação, no caso, dos dirigentes do PT condenados pela Justiça.

“Minha contrariedade com a política conduzida pelos nossos dirigentes, que levou a essa situação ignominiosa vivida por eles e pelo partido, é tão grande quanto minha indignação diante de qualquer arbitrariedade ou violência que eles estejam ou venham a sofrer, dentro e fora da prisão”, ressaltou Olívio.

O ex-governador destacou, ainda, que o deputado federal José Genoino merece condições especiais no cumprimento de sua pena, por seu estado de saúde. Olívio participou da primeira gestão ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas deixou o Ministério das Cidades em 2005, quando a pasta foi entregue ao PP, um dos partidos que migraram para a base de apoio do governo.”Não é o passado que está em jogo, é o presente”.

Na manifestação desta sexta-feira, por nota, Olívio foi menos direto do que na entrevista ao Jornal do Comércio, publicada na quinta-feira, na qual discordou de quem atribuiu cunho político ao julgamento do mensalão e à prisão de Genoino, José Dirceu e Delúbio Soares.

Karen Armstrong no Fronteiras do Pensamento

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Historiadora inglesa abriu nesta segunda-feira o ciclo de conferências, no salão de atos da UFRGS.

ZH de 06/05/2013, Segundo Caderno.

Uma das mais respeitadas historiadoras da religião em atividade, Karen Armstrong não se contenta em pesquisar em fontes antigas.

A inglesa, que proferiu ontem a primeira palestra do ciclo Fronteiras do Pensamento, vem se dedicando a uma tarefa prática e, para ela, essencial: devolver a compaixão ao centro moral de qualquer prática religiosa.

Para um salão de atos lotado, Karen Armstrong passeou, ao longo de sua fala, por diversas histórias e fundamentos de diferentes religiões ao redor do globo: judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, com passagens por grandes obras da tradição literária, como a Ilíada, de Homero. Todas as religiões, para ela, trazem em seu coração um princípio comum ao qual ela deu o nome de “Regra de Ouro”.

– Todas as principais religiões do mundo desenvolveram algo que pode ser chamado a Regra de Ouro. Não é uma doutrina, é um teste para a verdadeira espiritualidade: nunca trate alguém como não gostaria de ser tratado – disse.

Armstrong começou sua palestra assumindo a dificuldade de definir o que é religião – algo que sempre permeou a vida humana, mas foi transformado em algo apartado após o começo da era moderna. A religião, para ela, passa, contudo, pela capacidade de vencer ou pôr de lado o ego, aquilo que, segundo ela, “nos mantém afastados do que há de melhor em nós”. Outro elemento fundamental da prática religiosa, para ela, é a identificação do outro como alguém igual, merecedor de uma empatia que não nasce naturalmente, mas é exercitada continuamente.

– O conhecimento religioso não é algo que se faça apenas dentro da cabeça, é uma prática, como andar de bicicleta, dirigir ou nadar. Você não aprende lendo livros ou manuais, você tem de entrar no carro e pisar nos pedais, ou mergulhar, entrar na água. Religião tem mais a ver com fazer coisas do que pensar coisas – disse.

A necessidade de prática foi reforçada constantemente em seu discurso. Para ela, mitos não são, como a idade moderna os apelidou, mentiras. São guias práticos e simbólicos para a ação, e só fazem sentido dentro dos rituais práticas nos quais estavam inseridos. Karen, que investiu o dinheiro que recebeu ao ser agraciada com o TED Prize em um instituto para aprofundar sua idéia de espalhar a compaixão pelo mundo em questões práticas, como a organização das comunidades, encerrou falando de sua experiência à frente da entidade, Charter for Compassion. Ao mencionar o episódio da Ilíada, de Homero, na qual o grego Aquiles devolve ao rei troiano, seu inimigo, o cadáver do filho morto em combate, ela resumiu o que considera o centro da prática moral da compaixão:

– Ter compaixão é reconhecer que seu inimigo também sofre.

O Fronteiras do Pensamento Porto Alegre é apresentado pela Braskem e tem o patrocínio de Unimed Porto Alegre, Weinmann Laboratório, Santander, CPFL Energia, Natura e Gerdau. Promoção Grupo RBS. O projeto conta com a UFRGS como universidade parceira e com a parceria cultural de Unisinos, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Governo do Estado do RS.

Dois vigários

Por LUIZ ANTÔNIO ARAUJO na ZH de 17/02/2013.

Ao ler entrevista do teólogo e escritor Leonardo Boff ao repórter Léo Gerchmann, de Zero Hora (http://migre.me/dfxLO), lembrei de uma noite quente de outubro de 1984. Eu estava entre centenas de estudantes de Comunicação reunidos num auditório da Universidade Metodista de Piracicaba durante um congresso da União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC). O Brasil ainda vivia sob o regime militar, mas, no campus de Piracicaba, discutia-se o futuro. Tudo tinha o tom de celebração próprio daqueles que se consideravam um pouco responsáveis pela derrubada da ditadura. Uma conferência do procurador de Justiça Hélio Bicudo, o homem que denunciara o Esquadrão da Morte, terminou com público e conferencista dançando ciranda ao som de um pandeiro. Sentada no centro de um gramado, a atriz e deputada federal Bete Mendes tinha de gritar para ser ouvida pela pequena multidão de jovens que a cercavam. No auditório em que eu me encontrava, o tema era o silêncio. Os palestrantes eram os frades Leonardo Boff e seu irmão, Clodovis Boff, e o escritor Frei Betto.

Falava-se de silêncio, mas havia barulho. O catarinense Leonardo tinha acabado de se tornar réu em um processo perante a Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, órgão do Vaticano encarregado de zelar pela pureza da doutrina católica. Sua teologia, expressa em livros como Igreja: Carisma e Poder, pregava a opção preferencial da Igreja pelos pobres. Para a Cúria romana, essas eram ideias mais marxistas do que cristãs. Não que as preocupações sociais fossem novidade para a Igreja. Havia um século, o papa Leão XIII havia escrito um documento sobre as condições de vida dos trabalhadores. A cúpula católica, porém, era solidamente conservadora. O Vaticano tinha sido parceiro leal de Mussolini. Mantivera respeito tolerante diante de Hitler e omissão diante do Holocausto. Foi preciso esperar os anos 1960 para que a Igreja respirasse novos ares. Com o Concílio Vaticano II, a hierarquia acenou com uma guinada modernizante, abandonando muito do que cheirava a passado, da frieza diante da desigualdade à missa em latim. Ao bater de asas de borboleta na cúpula, seguiu-se um terremoto entre os fiéis. No Terceiro Mundo, sacerdotes e noviços abraçaram ideias como as dos irmãos Boff e de Betto _ este, aliás, ainda noviço dominicano, fora um entre muitos a colaborar com o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN). Eram os “padres de passeata” e as “freiras de minissaia”, que tanto horrorizavam o dramaturgo Nelson Rodrigues.

A reação do Vaticano contra a chamada Teologia da Libertação não tardou. Foi comandada por dois homens que moldaram 30 anos de história do catolicismo: Karol Wojtyla e Joseph Ratzinger. O primeiro tornou-se papa João Paulo II. O último, teólogo desiludido com o Concílio Vaticano II, chegou a prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Encarregado de dedetizar a teologia de qualquer viés esquerdista, enquadrou seu ex-aluno Leonardo Boff, indicando-lhe o mesmo banco dos réus que um dia acomodara Galileu Galilei. Em 1985, Boff foi condenado a guardar “silêncio obsequioso” sobre suas ideias e destituído de funções editoriais e de magistério. Essa primeira punição foi revertida, mas em 1992 Boff sofreu nova condenação. Para continuar agindo e pensando como o cristão que aprendera a ser, teve de abandonar a Igreja. Suas lembranças sobre o algoz, hoje papa Bento XVI, são eloquentes na entrevista a ZH: “Em vez de fazer festa, como todos faziam, ele me convidava para uma caminhada. Conversávamos muito, trocávamos livros, ele apreciava muito a minha teologia. Depois, como cardeal, mudou. Ele me chama, ainda hoje, de ‘teólogo piedoso'”. Léo Gerchmann perguntou-lhe havia quanto tempo não via Ratzinger. Boff respondeu:

_ Desde 1984.

Naquele ano distante, o mesmo do encontro em Piracicaba, eram o frei e o cardeal. Hoje, são apenas Boff e, daqui a poucas semanas, Ratzinger. No poema Dois Vigários, Drummond fala de uma dupla de sacerdotes cujos caminhos se bifurcam pela vida afora. Um deles evolui para a devassidão, outro, para a santidade. Numa noite, são simultaneamente fulminados por dois raios. Entre os túmulos vizinhos, brota uma flor “que não se sabe até hoje / cinquenta anos se passaram / se é de compaixão divina / ou divina indiferença”. Entre Boff e Ratzinger, não há nenhuma flor. Apenas um número: 1984.

Luiz Antônio Araujo é Jornalista.

O medo de Karol

Por MOISÉS MENDES na ZH de 17/02/2013.

O repórter Geneton Moraes Neto fez uma entrevista que eu queria ter feito. O grande Geneton conversou com dom Eugênio Sales, em 2010, e viu o arcebispo expor sua alma. Num dos melhores momentos da entrevista, o religioso fala do medo revelado por Karol Józef Wojtyla, logo depois de eleito papa em 1978.

Quando foi informado de que havia sido escolhido, o polonês avisou que seus colegas poderiam ter cometido um equívoco. Por que o elegeram se ele não se sentia em condições de ser papa? Dom Eugênio assegurou a Geneton que aquela era uma manifestação sincera de um homem apavorado:

_ Ele não queria aceitar.

Por alguns minutos, até ser convencido pelos cardeais de que não poderia recuar, Karol vacilou. Estava paralisado, como o guri que os colegas de colégio elegem, à revelia, para ser orador e líder da turma, da escola e de toda a congregação. E para o resto da vida. Karol e dom Eugênio tinham 58 anos.

Medo. É o que transpirava dos afrescos de Michelangelo naquele 16 de outubro de 1978 na Capela Sistina. Nesse mundo de irrelevâncias, é bom saber que um papa eleito sente e expressa pavor. Não é um Sarney fraquejando, como fraquejou, diante da possibilidade de substituir o Tancredo morto. Não é Zico substituindo Pelé.

Você, que já foi chamado para um cargo de comando e titubeou, você sabe que nada como um cargo de direção para expor caráter, medos e imposturas. Um gerente ou um diretor é alguém que chegou ao topo, de um morrinho ou do Everest, muitas vezes sem pulmão, sem pernas e sem cabeça para estar ali.

Karol não havia sido indicado para presidir a GM, a Gilette ou a GE e tampouco para salvar o banco Lehman Brothers. Fora escolhido para suceder ao carismático João Paulo I como o mais alto executivo de Deus na terra.

Karol não queria ser papa. Albino Luciani, seu antecessor, também não. Luciani foi João Paulo I por apenas um mês. Dom Eugênio diz na entrevista a Geneton que é provável que Luciani, surpreendido pela eleição, tenha morrido sob uma pressão insuportável.

Pois sabe-se que Joseph Ratzinger queria muito ser papa. E anunciou a renúncia dizendo que ser papa não era apenas cumprir a missão com obras e palavras, mas sofrendo e rezando. João Paulo II rezava, sofria e degradava-se a cada aparição pública.

E Ratzinger? Qual foi o limite do seu sofrimento? É inevitável, observando-se o perfil de Bento XVI, pensar que o papa alemão, racional, intelectual, o guardião inflexível dos dogmas da Igreja, tenha decidido continuar rezando e sofrendo sem os encargos que tanto desejara.

O racionalismo venceu Ratzinger no momento crucial em que teve de escolher: continuava sendo um papa curvado publicamente à fragilidade física, como João Paulo II, ou se recolhia ao quartinho dos fundos?

A hora de ir embora _ do presidente de uma empresa, de um Sarney (que não vai embora nunca), de um Pelé, de um artista _ não tem nada das particularidades de uma decisão como a de Ratzinger.

Um papa está em missão vitalícia. Rezar, sofrer e envelhecer, sempre rezando e sofrendo, como líder exemplar, é da essência dessa missão cristã, até o que restar de vida. Ou um dogma da própria Igreja deixa então de ter sentido.

O sucessor de Bento XVI deve ser alguém que não queira tanto ser papa. Deve ter a delicadeza franciscana de um Albino Luciani e a sincera indecisão de um Karol Józef Wojtyla. Homens valentes, em quaisquer missões, inclusive os mais altos representantes de Deus (um dia, quem sabe, serão também mulheres), assumem que sentem muito medo.

Moisés Mendes é Jornalista.

A RENÚNCIA

Por FLÁVIO TAVARES na ZH de 17/02/2013.

 

A decrepitude física não é um mal, é apenas o testemunho de um itinerário. Ou um testemunho da vida e dos longos anos vividos. Penso nisto, agora, na renúncia do papa Bento XVI. Durante anos, quando cardeal, Joseph Ratzinger revelou-se rígido, impermeável ou surdo ao mundo profano. Tão surdo, que não ouviu a voz dos novos teólogos do século 20, como o suíço Hans Kung ou nosso Leonardo Boff, e os condenou ao silêncio por tentarem fundir a fé cristã com a sociedade e o povo. Já idoso, assumiu o papado com a sabedoria dos longevos e, em sete anos e 10 meses, compreendeu que não teria forças para enfrentar o mundo da sociedade de consumo e do hedonismo, que ameaça devorar a Igreja que o papa deve preservar.

Bento XVI renunciou para não repetir a década final de vida do seu antecessor. João Paulo II, com mal de Parkinson extremo, quase sem fala, comunicando-se por gestos e monossílabos, nunca pensou em renúncia. Era um símbolo da segunda metade do século 20 (a partir da sua Polônia natal derrotara o comunismo soviético) e os símbolos não renunciam ao que são. Em contraposição, mesmo com marca-passo cardíaco, o papa Ratzinger tem hoje melhor saúde do que o papa Wojtyla nos últimos 10 ou 15 anos da sua longa permanência no Vaticano. O atentado de maio de 1981 debilitou sua saúde e a Cúria Romana apropriou-se da Igreja, suplantando o Papa.

***

O carismático Wojtyla viajava mundo afora. Era um propagandista ou “relações-públicas” da Igreja que a Cúria comandava em Roma. Um de seus integrantes, o cardeal Ratzinger, dirigia no Vaticano uma “nova Inquisição” cuja fogueira pela “pureza da fé” consistiu em condenar ao silêncio mais de 150 teólogos progressistas. Em contrapartida, elaborou o Novo Catecismo, instituindo os pecados sociais, como a exploração do trabalho. Ou sustentou a nova visão teológica de que o inferno é um estado de espírito ou de comportamento, não uma fornalha no Além. Punia os progressistas, mas oficializava ideias progressistas.

Eleito papa, o austero Ratzinger não se contentou em ser propagandista. Na visita à Austrália, aclamado nas ruas, lembrou que “o Papa não é um astro de rock”, mostrando que queria ser chefe efetivo da Igreja. Mas a Cúria Romana dominava a Igreja, interessando-se mais pelos aspectos internos do que pela conexão com o mundo. Com germânica persistência, ele tentou tomar as rédeas e designou o cardeal Bertone, de sua máxima confiança, como secretário de Estado, em lugar do astuto cardeal Sodano, ligado aos burocratas da Cúria. E aí (lembram os que conhecem os labirintos do Vaticano) se ampliam os fuxicos que culminam com o escândalo do mordomo papal “vendendo” documentos do banco do Vaticano e outros de caráter reservado, para atingir Bertone e salpicar o próprio Papa.

“O Vaticano não é um lugar de santos, mas de homens pecadores e a própria Igreja é pecadora” _ disse-me dom Hélder Câmara em 1981, em Recife. Agora, Bento XVI renuncia sob a amargura de não ter podido calar a Cúria conservadora (da qual fez parte, antes) e retomar princípios éticos nos quais crê.

Como um vitral, sua trajetória projetou luzes e sombras, tal qual a história da Igreja. De uma Igreja que já não tem o prestígio nem o domínio de meio século atrás, num momento em que o capitalismo predador do século 21 inventou um novo e único deus _ o ato de lucrar e consumir.

 

Flávio Tavares é Jornalista e escritor